Momentos do depoimento da filha de Claudia Hoeckler no julgamento Capinzal
- Jardel Martinazzo
- 28/08/2025 23:00

Gabriela Hoeckler, de 25 anos, filha de Claudia e Valdemir, foi a décima e última testemunha a ser ouvida no julgamento que acontece no plenário da Câmara de Vereadores de Capinzal. Outras duas testemunhas estavam previstas, mas não compareceram ao júri, iniciado às 9h desta quinta-feira (28).
Claudia responde pela acusação de assassinar o marido, Valdemir Hoeckler, e ocultar o corpo no freezer da residência da família, no interior de Lacerdópolis, em novembro de 2022.
O depoimento de Gabriela começou por volta das 20h30 e terminou perto das 22h, antecedendo o interrogatório da mãe, ré por homicídio duplamente qualificado — por meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
Durante cerca de uma hora e meia, Gabriela relatou episódios da convivência familiar, descrevendo comportamentos, conflitos e lembranças marcantes de sua infância e juventude.
Ela contou que morava apenas com a mãe e, por ser pequena, não entendia a ausência frequente do pai. Recorda-se de quando Valdemir a levou para conhecer os irmãos de outro relacionamento, o que a deixou confusa. Aos sete anos, ele foi morar com elas, o que lhe causou estranhamento, já que estava acostumada apenas com a mãe. Disse que tinha vergonha da presença do pai em casa, a ponto de se sentir constrangida até para usar o banheiro.
Segundo Gabriela, a relação que era tranquila passou a ser marcada por brigas após a chegada de Valdemir. Lembrou de episódios em que ele quebrou pratos e jogou o celular de Claudia no asfalto, destruído em seguida por um carro. Nessas situações, mãe e filha costumavam sair de casa.
Gabriela relatou ainda que o pai a procurava nas casas das amigas e que, em viagens ao Paraguai, trazia inicialmente brinquedos e eletrônicos, mas depois passou a trazer cigarros contrabandeados. Ele acabou preso diversas vezes, pagando fianças, e, em algumas ocasiões, Claudia precisou viajar em seu lugar. Recordou também de uma grande operação policial contra o contrabando, experiência que a marcou.
Ela afirmou que não tinha boa relação com a avó paterna e que, após as prisões de Valdemir, passou a rejeitar a presença dele em casa, pois antes dessas situações, segundo ela, a mãe não se envolvia em crimes.
Disse que não queria se mudar para Lacerdópolis, onde foram morar quando tinha 10 anos, pois tinha uma boa vida em Concórdia. Recorda que inicialmente viveram na casa dos avós paternos até a nova residência ficar pronta, e que o pai era autoritário, querendo que tudo fosse feito da sua forma.
Relatou momentos de agressividade, como quando o pai se irritou porque ela pediu para ir ao banheiro durante a ordenha e não permitiu, obrigando-a a usar uma pá. Contou ainda que Claudia tinha medo e não enfrentava Valdemir, citando um episódio em que ele ameaçou acusar a esposa de furto para que perdesse a guarda da filha, caso não voltasse para casa.
Gabriela disse que, aos 14 anos, começou a trabalhar em busca de independência, mas o pai não aceitava, questionando por que ela queria trabalhar se poderia ficar em casa. Revelou que recebia o salário em mãos, mas que Valdemir dizia depositar em uma conta conjunta — até descobrir, em uma ocasião, que a conta estava zerada.
Ela também lembrou de um episódio em que, antes de um café colonial, discutiu com o pai por causa de uma saia que usava. Ele a chamou de “vagabunda” e, no dia seguinte, cortou a peça em pedaços, afirmando que ela nunca mais deveria desobedecê-lo.
Disse que, apesar de momentos de aparente normalidade, só havia harmonia quando todos faziam as vontades de Valdemir. Contou que, ao morar em um porão com a mãe, sentia-se feliz apenas por estar ao lado dela, embora soubesse que Claudia não era feliz com o marido. Questionava o motivo de a mãe sempre voltar após tentativas de separação, e ouvia que um dia entenderia.
Relatou ainda diferenças no tratamento entre os irmãos: enquanto alguns recebiam apoio financeiro e bens, como aluguel e moto, ela não tinha auxílio. Para cursar a faculdade, cuja mensalidade era de R$ 1.400, recebia ajuda da mãe, mas mesmo assim enfrentava dificuldades.
Gabriela contou que não foi convidada para o casamento dos pais, em setembro de 2019, e só soube do evento por terceiros. Já sobre o desaparecimento do pai, em novembro de 2022, disse que acreditava se tratar de mais uma briga e não imaginava que ele estivesse morto.
Ela afirmou que permaneceu ao lado da mãe, sem desconfiar que o corpo estava no freezer da residência. Revelou que, após a confissão, Claudia disse: “era eu ou ele”, justificando que agiu para proteger a filha.
Gabriela destacou que chegou a pensar como seria se a situação tivesse sido inversa e Valdemir tivesse matado Claudia, acreditando que, nesse caso, estaria em perigo.
Questionada sobre dinheiro guardado em casa, disse não ter conhecimento. Relatou que fez acompanhamento psicológico a partir de 2019, por conta do estresse e da dificuldade de convivência com o pai.
Após o depoimento, a defesa encerrou a oitiva. A acusação, em respeito a Gabriela, optou por não fazer perguntas.
Créditos: Informações - Gabriel Leal